Por que a Casa de Cultura tem o nome de Jonas&Pilar?

fevereiro 19, 2022

 



 Lá vem História a fim de explicar essa pergunta recorrente. E essa História está intimamente ligada ao nosso projeto Histórias de Vila Macuco, ou seja, o nome Casa de Cultura Jonas & Pilar é para que as pessoas jamais se esqueçam de sua própria História.

 

Essa História é minha e, por isso, vou fazer um relato muito pessoal. Era ainda século XX, ano de 1975, dentre os jovens adoidados, Ramon Vane, Marialda Silveira, Maria Helena Cardoso, Gilda Lins, Gildásio Gonzaga, Serra Valadares, Telma, Valdeci, Marli Lino (minha memória não ajuda a lembrar do nome de todos) e eu, nos juntamos para movimentar Buerarema através da literatura. Era como um Clube de Leitura: trocávamos livros e publicávamos um jornal mimeografado*. Um dia, resolvemos fazer uma sessão solene de inauguração na Maçonaria. Foi a conta. A partir daí o teatro entrou em nossas vidas e não saiu nunca mais.

 

Eu havia escrito um texto curto chamado Plumbum (chumbo em latim). Nunca havia pensado em ser ator na vida. Ramon Vane diz: Você vai fazer esse texto na inauguração. Rapaz, eu não sei como fazer isso. Vai fazer, sim. E fiz. Tivemos que repetir a apresentação e Ramon jamais esqueceu desse texto que desapareceu nas andanças da vida. E, foi assim, com um pequeno monólogo chamado Plumbum que essa turma toda mergulhou no teatro. Aí, entrou um jovem músico chamado Marcelo Ganem, ficamos amigos, assim como fiquei amigo dos pais dele: dona Pilar e seo Jonas, ambos da geração original que chegou para desbravar o arruado de Buerarema e seus brejos inóspitos no início do século XX.

 

Além do teatro, tínhamos o jornal mimeografado Tablado Literário, escrevíamos, gravávamos e editávamos um radioteatro que ia ao ar às 10 horas do domingo na antiga rádio Clube de Itabuna, hoje rádio Nacional. A primeira montagem foi Os Presos do Camacã, de Antônio Júnior. Ensaiávamos em vários lugares (curioso como o teatro é jogado de um lugar para outro). Um dos lugares mais inusitados era o armazém de cacau de seo Cassimiro ali na rua Siqueira Campos, hoje é um loja de venda de madeira. E Marcelo Ganem mexendo com a música original, às vezes Jorge Martins fazendo a trilha. E quando resolvemos montar o texto O Crucificado (Carlos Solórzano, Guatemala) eu me aproximei mais de dona Pilar e da história dela, que era imigrante. Veio da Espanha para nossas terras com apenas quatro anos de idade. Ela me ajudou a traduzir o texto. Mas, confesso, ela já não se lembrava tanto de sua língua materna.

 

Assim como dona Pilar seo Jonas Ganem também era imigrante e descendia de uma família libanesa. Eles, como tantos outros, de Sergipe, Alagoas e, principalmente, do sertão baiano, se agregaram ao arruado de Macuco, que virou Vila Macuco e, depois, Buerarema (escolha trágica). Era início do século XX e coube ao destino reunir essas almas que procuravam uma vida melhor. E o cacau ajudou muito nisso. Uma curiosidade: dona Pilar era Sanjuan. Quem veio primeiro foi o padre Luiz Sanjuam, depois, muitos membros da família cujos descendentes estão na cidade até hoje. Os Sanjuan (o povo não sabia falar e os chamavam de São João. Muito correto) tinham o hábito de comer legumes e verduras, diferentemente dos sertanejos condicionados apenas a farinha, feijão e carne seca. Aí as culturas se entrecruzaram.

 

De repente, os jovens ficaram adultos e precisavam se profissionalizar e cada um foi pegando seu rumo. Houve dispersão. Quarenta anos depois, Marcelo Ganem teve a ideia de concretizar um sonho antigo: fazer um centro cultural (chega desse nomadismo dos artistas). Me convoca, mas eu disse que precisaria me aposentar. E assim foi. Adquirida em 2012 dos outros herdeiros, esse patrimônio familiar começou a organizar a pessoa jurídica que passou a se chamar Instituto Macuco Jequitibá (resgatando uma antiga ideia do jovem Cassimiro, o conhecido Biro). E fomos dando corpo a ideia de como seria esse Centro Cultural que este ano comemora seus dez anos. Um dia tocamos no assunto do nome. Eu fiquei de pensar, afinal uma coisa é a pessoa jurídica, outra é o nome pelo qual as pessoas chamam um lugar. Enfim, pensei, foi ali, na casa que já foi escola e, depois, residência, que moraram dois pioneiros e ali terminaram de criar seus filhos: Jonas e Pilar. Desde os anos 70 eles ficaram meus amigos, muitas histórias. Então disse, vamos chamar Casa de Cultura Jonas & Pilar. Marcelo ficou reticente. Eu insisti, afinal ele havia me dado carta branca para decidir como seria esse centro. Então, decidi. E em 2013 do século XXI começaram os trabalhos artísticos com o suporte do grupo A Tribo, outra geração de amantes do teatro....mas essa é outra História. (Gideon Rosa)

Gideon é ator e jornalista. 

 

*Mimeógrafo: equipamento que produz cópias a partir de matriz perfurada ( estêncil ) afixada em torno de pequena bobina de entintamento interno e acionada por tração manual ou mecânica.

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1 comentários

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